Chuva Paulistana

Ah! Este orgulho máximo de ser paulistanamente!(Mário de Andrade)

Agora você escreve


Agora você escreve. No me importa un coño o quê, mas você vai ter que escrever. Conta de onde você tira essa inspiração. Escreve pra eles da angústia de ver o cursor piscando na tela, fala da humilhação que são essas tantas horas à frente de uma página que permanece desesperadoramente em branco.
 Escreve sobre como você vale pouco. Escreve que você só queria ser o macaquinho do zoo e que  você vai dar cambalhotas pra eles te jogarem pipoca.
Escreve que você só quer confete. Escreve pra pedir aplauso. Escreve pra pedir parabéns. Escreve pra pedir desculpa porque é só isso que você faz mesmo.

Escreve aí, que tudo aqui é auto promoção barata e inútil. Escreve enquanto dá, porque quando precisar de verdade, você não vai escrever merda nenhuma.
Escreve agora  e escreve com a urgência da última noite, porque amanhã você não tem mais nada. Nada. Isso, escreve nada, mas não se atreva a não escrever.
Escreve com a medíocridade de quem só tem a escrita pra corrigir a vida. Ou nem isso. Escreve como quem não tem nem escrita então. Mas escreve.

Escreve como quem roubou, mentiu, fraudou. Escreve como quem sabota a história, sacrifica a dignidade e cospe na próprio nome por orgulho. Escreve porque tem ego, escreve por vaidade.

Você provocou isso, criou um mundo onde só lhe restaria escrever.

Então agora você escreve, filho da puta.

Agora você escreve.


Plzeň


Is all about….ir a Pilsen beber cerveja.

Pode parecer clichê mas olha só, não se comem salsichas frankfurten em Frankfurt, nem hamburgueres em Hamburgo. Os inspetores belgas não se parecem com Hercule Poirot, a Suíça vende os “canivetes do exército suíço” sem de fato possuir um exército. Ninguém sabe o que é uma torta holandesa na Holanda e você pode virar Paris de ponta cabeça sem encontrar um único paozinho francês.  Neste contexto, viajar quase duas horas (num trem que está a apenas alguns vidros quebrados de fazer a linha Brás-Calmon Viana) só pra tomar algumas pilsens em Pilsen é mais que uma decisão estranha, é um clichê necessário a quem já começa a especular se o mundo não é, de fato, um engano colossal.

  Pilsen fica entre uma cadeia de montanhas, que costuma “segurar” as nuvens e um longo planalto de onde sopra um vento frio da Alemanha. O que significa que em dias de primavera a temperatura chega a cair de 29 graus com sol para 5 com chuva. O motivo exato disso não ficou muito claro, mas explica um pouco por quê, na antiga Bohemia, os deuses eram mais criticados do que venerados.
  Aliás, isso se tornou um problema com a chegada do catolicismo. Depois de um debate acarolado (cujos principais argumentos envolviam pessoas enfiando objetos pontiagudos umas nas outras) as pessoas acabaram desistindo do politeísmo, ou da vida (geralmente dos dois). Os que sobraram costumavam ter seus bens saqueados, celeiros incendiados e casas vandalizadas em atos que eram normalmente atribuídos à intervenção divina. Alguns bohemios achavam que a teoria apresentava falhas, mas os clericos cristãos sempre deixaram muito claro que havia de fato lugar para a argumentação baseada em pensamento lógico e informações fidedignas, e esse lugar ficava no alto de uma fogueira no solstício seguinte.
  Além de praticar bullyng em pagãos, outro hobby muito comum naquele tempo era, claro, a cerveja. Uma coisa interessante é que na lingua tcheca não existe diferença entre bar e cervejaria. Digo, a idéia de produzir cerveja em um lugar e vender em outro não era comum pra eles. Na verdade, mesmo a venda não era exatamente um costume porque todos faziam a sua própria cerveja. Por isso mesmo, em certo momento da história, Pilsen inteira era formada de mestres cervejeiros.

Digo isso para explicar que quando desci aquele tunel, se não bebado, eu estava bastante empolgado com o simbolo local. Tropeçadamente empolgado, eu diria.

Ah o túnel, bem….

Com um tempo que pode variar até 20 graus em um unico dia, fica um pouco dificil fermentar cerveja, então os locais cavavam tuneis onde podiam manter os barris a uma temperatura fixa. Com o tempo, tuneis foram construidos entre essas pequenas adegas e em determinado momento, todo o centro da cidade era conectado subterraneamente. Uma espécie de cidade embaixo da cidade. Havia também dormitórios lá embaixo então as pessoas não precisavam subir nunca.

(Um aparte aqui: você vai dizer que não há nenhum sentido nisso, mas é muito fácil sair falando em coerência e na lógica que governa o universo quando a questão pura e simples é que na Bohemia da idade média, cranios humanos eram objeto de decoração e deuses tinham o hábito de aparecer na casa dos ateus quebrando as janelas. Num mundo assim, eu também ia querer morar ao lado de um barril de cerveja.)

Talvez por estar etilicamente alterado (ou talvez simplesmente porque eu seja um idiota) não quis esperar pela volta do guia e convenci Vladek* - um tcheco que tava por ali só de turista - a descer comigo e tentarmos encontrar o guia lá embaixo. Os tuneis todos tinha placas como ruas.

Parecia fácil...

De cima há marcações nos limites da cidade antiga e o quadrilatero não devia ter mais de 1km pra cada lado. Porém depois de 40 minutos trombando em barris enormes (e terrivelmente vazios), rodas d’agua, tuneis estreitos e paredes úmidas que insistiam em se mexer quando eu passava, já era o caso de admitir que estávamos perdidos. Ou o lugar era muito maior do que parecia, ou agora estavamos num segundo piso subterrâneo sem ter descido escada alguma, ou - como eu já começava a suspeitar - o lugar desobedecia uma regra bastante básica da arquitetura: era maior por dentro que por fora.

Depois de comentar que as placas dos dois lados do labirinto eram iguais, e que faltava meia hora pra fecharem o portão, Vladek avaliou que aquele era um momento adequado para entrar em panico.  O pouco ingles que ele falava provavelmente se escondeu em algum comodo esquecido de sua mente e ele começou a falar initerruptamente em tcheco.Eu dizia que não estava entendendo e ele repetia a mesma frase. Em Tcheco. Alto. E devagar. Daí, até por solidariedade, achei de bom tom entrar em panico também.
Não que eu seja do tipo empático, devo admitir, mas passar a noite preso num gelado labirinto subterraneo de uma cidadezinha qualquer nas montanhas de um país esquisito com um sujeito mentalmente desequilibrado é EXATAMENTE o tipo de coisa que costuma me acontecer.

Por sorte depois de algumas curvas eu acabei atropelando um sujeito que aparentemente trabalhava lá. Depois de conversar com o cara, Vladek relaxou um pouco, o que vale dizer que ainda faria uma corda de violino parecer uma tigela de gelatina. Quanto a mim, todo o medo já se consumira. Talvez eu tivesse ultrapassado a barreira do desespero e me encontrasse no estado de calma extrema que fica do outro lado.
 By the way, ele aparentemente sabia o caminho agora. Comentei que já tinha o suficiente pra lembrar de Pilsen por um tempo, ele concordou. E antes que pudesse me deter, alguma parte do cérebro que não tinha nada para fazer ganhou controle sobre a boca e acrescentou:
 - A gente podia ir ao primeiro bar aberto e pedir duas cervejas
 - É eu também preciso de duas cervejas.


Na verdade, a idéia de beber com ele estava tão distante de minha mente que, se algumas especulações modernas acerca da natureza e da forma do universo estiverem corretas, na verdade ela se encontrava em primeiro plano.

  E foi só. É claro que isso mudou a História - houve menos cerveja e mais aborrecimento em algum bar de Pilsen naquela noite, por exemplo - mas, no geral, o episódio passou despercebido.


* Pra falar a verdade eu não entendi o nome dele, mas tinha um equilibrista tcheco no Circo Garcia chamado Vladek e eu sempre achei esse nome maneiríssimo**

** Na verdade, pensando nisso agora, acho que o equilibrista era croata.

ps. A palavra cerveja foi escrita dez vezes nesse post. Onze agora.

Dresden - parte 1


Em 14 de fevereiro de 1945 a capitulação da Alemanha - já afundada na loucura assassina do nazismo - ja se desenhava como questão de tempo. O esforço de guerra havia afetado seriamente o país e serviços básicos já haviam, deixado de funcionar desde 1942. Mesmo assim, Harald - talvez num exercício de orgulho ou teimosia - estava naquela noite lutando com o já precário motor que movimentava o , uma espécie de teleférico cuja casa de máquinas fica em sua extremidade mais alta, nas colinas de Weißer Hirsch. Por essa posição privilegiada, acabou sendo a primeira pessoa de fora a ver os aviões da RAF sobrevoando o vale despejando a “árvore de natal” - espécie de sinalizador luminoso rubro-verde que marcava os alvos antes de um ataque - e ainda estava lá quando a fumaça invadiu o vale, vinda do incêndio na cidade mais antiga da Saxonia.
  Naquela noite, mais tarde, o jovem mecânico se viu tão compenetrado no barulho das bombas e na imagem da cidade em ruinas que nem pensou no fato.

Não obstante, ele foi o primeiro…

  A essa altura, todo o centro de Dresden estava iluminado pelas chamas e enquanto alguns habitantes fugiam de perto dos escombros temendo novas explosões, outros estavam demolindo as pontes com fervor para que o fogo não avançasse para a cidade baixa. Mas os navios nas docas do Elbe - carregados de tabaco - já queimavam e, como as amarras viraram pó, avançavam na maré baixa do rio, incendiando palácios e mansões à medida que eram levados para o subúrbio como vagalumes prestes a se afogar. As fagulhas voavam com a brisa e caíam por toda parte, até muito além do rio, em jardins escondidos e campos remotos.
A fumaça do incêndio subia vários quilômetros numa coluna negra esculpida pelo vento que se podia entrever por todo o vale até a Tchecoslováquia.
Era verdadeiramente impressionante avistá-la da colina fria e escura a quilômetros de distância onde Harald estava. O que nem ele, nem qualquer outro cidadão de Dresden sabia é que aquela era apenas a primeira bateria.

Houveram outras…

  Lá embaixo, no vale, houve um estrondo e um zumbido. Alguém mais imaginoso do que o resto da população havia mandado fechar as grandes comportas do rio, que ficavam no ponto em que o Elbe deixava a cidade, na esperança de salvar ao menos o porto. Impossibilitado de escoar, o rio transbordava e se alastrava pelas ruas incendiadas do centro baixo. Logo, o continente de chamas se transformou numa série de ilhas, cada qual diminuindo de tamanho à medida que a maré negra se elevava. E acima da cidade tomada pela fumaça, subiu a nuvem quente de vapor que cobriu as estrelas. Harald achou que parecia um cogumelo ou um fungo escurecido.
A cidade formada pela orgulhosa e Altstaad pela pestilenta Neustadt, da qual todas as outras cidades alemãs são mero reflexo, sofreu muitos ataques em toda a sua longa e tumultuada história e sempre conseguiu reflorescer. Portanto, o bombardeio - e posteriormente o incêndio que destruiu tudo o que restava, acrescentando ainda um cheiro terrível aos problemas dos sobreviventes - não assinalaram seu fim. Foram antes um sinal de pontuação, uma vírgula em brasa ou um ponto-e-vírgula em chamas, numa história que prossegue.

continua…

De Moskestraat


  Putte é um vilarejo meio belga meio holandês. Fica espremida entre uma pequena floresta, e uma zona de floricultura. É bem pequena e não aparece nos mapas da fronteira. Na verdade, sequer apareceria nos mapas da vila, se eles existissem.  Passa um trem ali, vindo de Roterdã a caminho da Antuérpia a cada 30 minutos. Tempo suficiente para conhecer o local ficar entediado e esperar o próximo trem.
  A parte neerlandesa da aldeia contém: Um restaurante anexo à estação e ao escritório central(perceba, alguém um dia não só julgou necessário que se administrasse a vila, como providenciou uma SEDE para tal) uma linha cheia de bandeiras demarcando onde acaba o país, quatro cemitérios(o que, comparado ao tamanho da população local, leva a crer que, ou a região passou recentemente por um apocalipse zumbi, ou está no topo da lista holandesa de "1001 lugares para conhecer depois de morrer") , seis carros, dois cavalos, uma vaca(!) e uma mesquita.

  Uma mesquita.

  No lugar mais irrelevante do planeta.

  Não é muito grande, e na verdade não é nem mesmo bonita (embora graças à iluminação e equipamento certos, tenha ficado bastante impressionante no folheto turístico), mas ainda assim é uma mesquita e tem até um minarete. E vai me servir de partida para uma pequena reflexão sociológica de boteco. Prepare o estômago:

  Aparentemente, qualquer ser humano médio com um Q.I. razoável é capaz de reconhecer um forasteiro em segundos. E com raríssimas exceções, em qualquer lugar do mundo, as pessoas tendem a gostar de turistas. É disso que se trata o sorriso amistoso dos velhinhos pescando no canal da vila. Eles tentam falar inglês, perguntam palavras básicas na sua lingua, andam com você até o restaurante, te dizem o que comer, mostram a casa deles, te explicam porque odiar franceses e outras amenidades do tipo. Por um curto período, serão as pessoas mais receptivas que você já conheceu na vida.  Quem é você ou de onde vem, tanto faz nesse contexto, desde que você apenas aceite os queijos e siga viagem.
   Mas os  muçulmanos não eram simplesmente visitantes. Eles já eram uma porcentagem significativa da população nas grandes cidades e começaram a se espalhar por vilarejos como aquele no interior do país. E foi aí que as origens passaram a fazer diferença e os problemas começaram. Entenda, essas pessoas estão aqui há muitas gerações, morando na mesma casa de seus tataravós e, muito provavelmente, usando os mesmos móveis. A vida dessa gente se movimenta mais ou menos na mesma velocidade de um contra ataque palmeirense. Tenho a impressão de que se um dia um raio derrubar uma arvore, ela permanecerá lá indefinidamente e daqui 100 anos vão chamar o lugar de “árvore caída straat" ou algo assim.  E daí chegam essas pessoas, vindas de um lugar tão distante quanto diferente, e constroem uma mesquita ali no fim da rua(que não é muito grande nem bonita mas que é uma mesquita e tem até um minarete),  e em meses a vila passa por um processo de mudança que levaria séculos em outros tempos. É razoável imaginar que exista um pequeno choque cultural com a população local.
    Não é sobre religião, nem etinia, é sobre valores. Existe por ali um orgulho exacerbado da própria história e cultura. As pessoas não cedem um único centímetro daquilo que acreditam que as faz únicas, como povo.
   E como se não bastasse, ainda tem a tradição. Porque, se as coisas funcionam bem do jeito que são há milênios, quem convenceria essas pessoas de que não continuariam bem por mais alguns?
  Eu sei, você vai dizer que são assim os novos tempos e que o mundo está mudando mas...e daí? Em Putte se penduram sacolas do correio na beira do trilho. É como se todo mundo ali fosse o ratinho Hem de "Quem Mexeu no Meu Queijo"(não me olha com essa cara, eu sei que você já leu quando não tinha ninguém vendo) Se desse pra colocar a versatilidade de um lugar numa régua cuja escala máxima fosse, sei lá Jerry Seinfield, Putte estaria em Danilo Gentili.
  Agora, imagine que existam vários lugares assim por toda a Europa. Mais que isso, imagine que a Europa inteira seja uma Putte continental. Acrescente a isso uma meia dúzia de facistas de verdade, alguns políticos oportunistas, dois grandes atentatos e uma crise financeira. O resultado é uma crescente população  muçulmana em choque direto com uma islamofobia cada vez maior.

   Parece um caldeirão em ebulição, certo? O futuro parece tenebroso, certo? Mas, olhe outra vez e perceba que esse copo jamais vai transbordar. Em determinado momento, essas pessoas vão simplesmente deixar de ser forasteiras. Quero dizer, a mesquita vai continuar indefinidamente lá, no fim da Moskestraat. Ela não é muito grande e nem mesmo bonita mas é uma mesquita e tem até um minarete, ninguém de Putte pode ignorar isso. E ninguém na Europa pode fingir que essas pessoas são invisiveise por isso mesmo, ainda que a mudança seja gradual, em algum momento o Islã não mais será um corpo estranho na Europa.

   Até lá, a mesquita de Putte(que não é muito grande e nem mesmo bonita, mas é uma mesquita e tem até um minarete) já terá se tornado parte da paisagem e a vila voltará à sua irrelevância habitual que por esses lados, a história mostra, é o jeito mais eficiente de se estar em paz.

InterCityExpress

-Meme o que?
-Memmingen, senhor.
-E onde fica Meligeni?
-Memmingen, senhor. Fica na Alemanha.
-Dá pra ser mais específica?
-É toda a informação de que disponho senhor. Olha, você precisa decidir agora, o embarque se encerra em 5 minutos.
-Eu tenho alternativa?
-Portão 12 senhor. Boa viagem.

  Eu, que já estava naquele estágio em que você simplesmente vira pro lado e concede qualquer informação não solicitada, importunava o estranho ao meu lado com a história do meu bilhete pro único voo cancelado em Dublin e de como eu precisava urgentemente olhar um mapa e descobrir pra onde diabos estava indo. Ela ouviu e quando pousamos me contou que estava na mesma situação. Ou pior, já que eu estava de férias e ela, tentando voltar pra casa.
  Não era uma beleza estonteante. Quero dizer, todos os seus traços, considerados individualmente, eram extremamente bonitos, mas seu rosto como um todo dava a impressão de que ele havia sido feito apressadamente sem consulta ao manual. Provavelmente a palavra mais adequada seria "atraente".
  Eu fui atrás de um jeito de sair dali e ela foi descontar a frustração em alguém - pelo que entendi. No balcão de informações eu tive uma ideia real do quão longe estava de onde deveria estar: Dois trens locais até pegar um expresso noturno que só chegaria em Berlin na manhã seguinte. Eram duas da tarde.

  Quando a encontrei novamente, no guichê da companhia aérea, um funcionário se encolhia visivelmente diante de seu olhar fuzilante e piscava assustado toda vez que ela batia no balcão. Ela não falava em tortura, mas fazia parecer que não era uma opção totalmente descartada. De qualquer maneira, conseguiu o documento de reembolso que pleiteava e veio na minha direção acenando com o prêmio.

-O trem só parte em três horas. Vou andar por aí. Me acompanha?

  Memmingen parece uma cidade cinematográfica do Projac pra alguma adaptação mambembe dos irmãos Grimm na novela das 6. Uma praça central com um mercado (chamada, veja você, marktplatz) rodeada por grandes casas brancas de arquitetura germânica clássica com heróis pintados nas laterais. Mais ao fundo, alguns prédios de apartamento e um longo e suave aclive com ruas estreitas e casas de enxaimel bonitas, mas simples, amontoadas até um planalto, onde fica o aeroporto.
  Ela fotografava tudo. Era o que fazia pra viver, aliás. Australiana, vivia feito nômade pela Alemanha até encontrar em Berlin o único lugar onde poderia sobreviver de arte. Alugou um apartamento na Friedrich-Heine pra ficar próxima a seus iguais e o transformou em atelier. Eventualmente aproveitava uma dessas promoções de voo pra conhecer o resto da Europa. Aparentemente tinhamos ido a Dublin pelos mesmos motivos.

 -Ficar bêbada e me destruir.
 -Isso me soa familiar...

  O começo tinha sido difícil. O sotaque que misturava alemão e australiano estava além do que permitia minha pobre compreensão do idioma. Por isso ficava calado a maior parte do tempo. Do ponto de vista dela, talvez eu fosse só o primeiro exemplar de brasileiro tímido de que se teve notícia. Mas do meu ponto de vista, o diálogo foi:

- Eu vou oujjusdunds e no sábado se você quiser euajeushjuase e minha exposição é no domingo eu vou jhkjsdfkherh. Em todo caso você pode sdjkjejkalkjeiuw. O que acha?
- Claro! Porque não?
- Legal!

  Por conta disso andávamos em 3: eu ela e um bloco que gelo inquebrável e intrometido.Da minha parte já tinha até me conformado com a conversa de elevador mais longa da história da humanidade.

  Até que na primeira conexão, um policial me pediu o passaporte. Quando devolveu, comentou sorrindo que era a primeira vez que via um passaporte brasileiro em sei lá quantos anos na função. E ainda soltou um "gracias". Ora, nós somos milhares por aqui, mesmo nos lugares mais improváveis eu nunca passei mais de dois dias sem ver algum maldito fã de sertanejo. Nunca ter visto um brasileiro significava uma vida absurdamente limitada e rotineira sem talvez nunca ter saído daquela cidadezinha minúscula do interior. Acho que foi naquele momento - enquanto fingia interesse na história do time local e seu zagueiro brasileiro (que devia gostar de sertanejo também) - que decidi que não podia deixar ela se perder. Não pelo jeito como ela fechava os olhos enquanto sorria (um pouco por isso também) mas porque eu não queria ser como ELES.
  Era possível senti-los nas ruas. Os irrelevantes. Os comuns. Os silenciosos. Aqueles que tinham sido abandonados pelo destino e pela história. O povo das notas de rodapé, cuja única força estava em algum lugar do outro lado da sua imensa fraqueza, cujas crenças eram tão instáveis e comuns quanto as suas aspirações. E o povo da cidade - não os que moravam nas casas brancas da Marktplatz, mas os outros. As histórias nunca eram sobre eles. As histórias não estão, de modo geral, interessadas em carimbadores que permanecem sendo carimbadores e pobres cozinheiros gordos, cujo destino é morrer um pouco mais pobres e muito mais gordos.
  Essas pessoas eram as que faziam tudo funcionar, que preparavam as refeições, varriam o chão e recarregavam os estoques à noite, eram os guardas de imigração, os conferentes de trem, os balconistas de informações. Eram a loira de trança no balcão da cervejaria e o dono do último pub aberto na madrugada, o carteiro de alguma nowhere town e o chaveiro da rua vazia. Eram parte da paisagem. Eram os rostos na multidão cujos desejos e sonhos, por mais complacentes que fossem, não tinham nenhuma consequência. Eles eram os invisíveis.

- E eu aqui - pensei comigo - tentando enganar a sorte.

Era disso que se tratava, não? Ser mandado para o fim do mundo e ficar feliz por isso!
  Não era só atravessar um país de trem, havia uma outra viagem bem mais importante acontecendo ali e sorte era perceber. Que não havia nada em Berlin maior que os pequenos bares da bavária, e as cervejas de vending machines, e o volume baixinho das conversas no escuro, e a minha vida, e a vida dela, e as confissões entre semi estranhos e seus cochilos em ombro mutuo, e todo aquele sentimentalismo clichê do expresso noturno.
 Sorte era perceber que não conseguiria, ainda que pudesse, imaginar ninguém melhor pra me acompanhar  naquelas quase 20 horas. E que naquela manhã em Dublin eles me mandaram pra onde eu precisava ir. Porque se o fim do mundo era aquilo, se o fim do mundo era com ela, então o fim do mundo era exatamente onde eu deveria estar.

  Uma história. Isso é tudo o que você precisa pra vagar sua cadeira na vala comum dos iguais: uma boa história. Uma boa história e um bom final, é claro. As pessoas não se perdem no final das histórias. Elas se perdem no dia seguinte, depois da lista de próximos lançamentos, depois da orelha com a biografia do autor. Enquanto sobem os créditos ou quando entram os comerciais, logo após alguém na mesa mudar de assunto, é nesse momento que as pessoas ficam ocupadas demais e perdem telefones, endereços e interesse. Mas até lá já existiram os ímpetos de sinceridade que essas cervejas fortes alemãs costumam provocar e declarações mútuas de insanidade madrugada adentro.
  E é tudo o que importa. Uma boa história pra contar depois, dessas que ninguém vai acreditar, dessas que  terminam com promessas e reticências.

  Ela sabia disso também, claro que sabia. É a única explicação pra ter me puxado na estação de Berlin.

-Olha, faz isso depois, vem primeiro pra minha casa...



Erin go Bragh

  Menos por curiosidade e mais pela incapacidade de dizer 'não', estávamos em um vilarejo chamado Tuamgraney na outra costa do Ulster, perto de  Scarriff. O companheiro de viagem que me arrastou pra lá era Christopher, um inglês de Leeds que vinha, aparentemente há bem pouco tempo, estudando a língua irlandesa. Desde Dublin ele entrava na minha frente antes que eu começasse a falar e se comportava como uma espécie de tradutor numa mistura de inglês e gaélico provavelmente bem ruim, a julgar pela recepção das pessoas. O mais interessante é que ele parecia ser o único a não perceber e continuava insistindo naquilo alegando que deixava os locais mais receptivos. Por receptividade ou não, o motorista do ônibus teve ao menos a decencia de apontar a direção da vila quando nos largou na estrada.
  Receptividade, aliás, não era a ordem do dia.  O conceito de hospitalidade em Tuamgraney se resume a ignorar cuidadosamente cada novo visitante. Além da cota tradicional de indiferença, turistas ingleses ainda tinham direito a um generoso pacotinho de desprezo dos simpáticos nativos.
  Não que o lugar recebesse muitos turistas ultimamente, é bem verdade.
  Era, na verdade, um desses lugares que só existem para que as pessoas saiam de lá. O mundo está cheio deles: povoados remotos, cidadezinhas castigadas pelo vento na encosta, cabanas isoladas em montanhas frias, cuja única importância na história consiste em ser um lugar totalmente ordinário onde algo extraordinário começou a acontecer. Muitas vezes, nesses lugares, nada existe além de uma placa para indicar que,contra todas as possibilidades ginecológicas, nasceu alguém importante um dia. E essa era a maior prova de que os deuses celtas deviam curtir uma boa piada. Acontece que nasceu ali, Edna O' Brien, respeitada por feministas por seus romances de forte teor sexual na católica e radical Irlanda dos anos 60, venerada pela rasa direita brasileira por dizer que Chico Buarque era uma fraude, e conhecida pelo resto do mundo como autora da única biografia decente de James Joyce.
Saiu daí, aliás, a confusão. Por algum motivo não muito claro, confundiu-se criação e criatura e folhetos turísticos começaram a vender a imagem de Tuamgraney como a cidade onde nasceu o genial autor de Ulisses. Imagino as caras de  surpresa quando o pequeno vilarejo se viu invadido por onibus e mais ônibus vindos de Dublin, cheios de estudantes magricelas e garotas com boina de aviador, ávidos por serem ignorados pelos amistosos habitantes locais.
Mas além da capacidade de beber como se não houvesse fígado, o que parece manter a sanidade irlandesa é a fantástica habilidade de conformismo. Não que os Tuamgranenses compactuassem com o falso boato de que o maior escritor da história da Irlanda tenha nascido ali, mas também não se esforçaram muito em desmenti-lo. Assim, no final da James Joyce Street, em frente à James Joyce Square, uma charmosa construção abriga o pequeno mas organizado memorial a, vejam só, James Joyce.
  Fora isso não há mais nada na cidade. Quero dizer, QUASE nada. Porque onde houver uma vila, onde houver um irlandes, onde houver a tristeza de cair e ter de levantar mais vezes que qualquer outro povo no mundo, onde houver algum orgulho entre trevos e Lepechams, estará também aquele que se tornou base da civilização nesta parte do mundo: o Pub.

  Antes de entrarmos, Chris foi bem específico "você fala comigo e eu falo com eles ok?". Ainda tentei argumentar que a coisa toda era uma má idéia desde o início e que ele precisava praticar mais antes de tentar mas meu inglês (escola Joel Santana) não permite um leque muito grande de argumentação. E de qualquer maneira, eu já havia concordado com idéias bem piores aquele dia(chegar até ali, por exemplo).

  Lá dentro, havia um casal almoçando na única mesa ocupada, um velho bebendo no balcão e o barman/cozinheiro, que solenemente fingiu que não estávamos ali. Com a autoridade da cavalaria britanica cobrando impostos , Chris bateu com as costas do dedo no balcão e disse alguma coisa no idioma que ele jurava ser irlandês.
  Ninguém entendeu, na verdade. O velho riu, o casal virou com curiosidade, mas o garçon, partindo do pressuposto de que qualquer um que atravessasse aquela porta estava a fim de beber algo, tirou dois pints de cerveja.
  Chris segurou o copo dele olhando pra mim com ar de vitória. Preferi não comentar.

 Sugeri que comessemos. Então, nosso intrépido poliglota despejou sobre o homem uma nova leva de seu mal articulado esperanto celta.

Ele ficou em silêncio por um momento, olhando pra gente com um misto de pena e indiferença. Depois respondeu com um seco "pode falar inglês aqui."

Saboreei, vingado, o silencio mais constrangedor da história da humanidade e pedi o que o casal comia.

O barman trouxe dois pratos do que, em respeito à cultura local, chamarei de comida. Muito tempo atrás, o Éire tinha vasta agropecuária e, a julgar pela quantidade de restaurantes com plaquinhas "celtic food", uma cozinha bem desenvolvida também. Aí vieram os ingleses e arrasaram tudo e só sobraram as batatas. Pois os irlandeses transformaram o nobre saponaceo em símbolo nacional e inventaram centenas de maneiras de misturar batata com batata. Mas aí apareceu um fungo nas batatas que dizimou mais da metade da população. Aí eles desistiram da comida e se concentraram na cerveja.

Cerveja que aliás, o velho parecia beber como água e uma pequena multidão de copos vazios se acumulava na sua parte do balcão. Olhou pra nós com uma expressão de quem só agora reparou nossa existencia e ergueu a caneca: "foda-se a sua rainha" disse rindo. Chris sorriu de volta, um sorriso desconfortável, mas com uma vantagem de uns 15 dentes em relação ao velho.

 Aparentemente, era o check in ideal para o primeiro (e definitivo) penny de atenção que nos seria dedicado naquele lugar esquecido e, no fim das contas, seria mais incrível do que a visão de um velho bebado 13h de uma terça feira deixava transparecer.

continua...

A Caldeira

No Brasil é possivel fazer coisas com carne que um boi mediano jamais imaginaria. Mas na Bélgica não há muita carne disponível, menos ainda em Oostende, na costa. Desenvolveram ali uma cozinha baseada em frutos do mar do norte mas não sei. Isso pra mim não é COZINHAR. Trata-se apenas de se manter vivo da forma mais agradável possível. Ao que parece, exceto pelos peixes, as pessoas em Oostende não tem nada muito comestível pra colocar à mesa ou pelo menos o que eu considero comestível(coisas com no máximo duas asas ou nadadeiras, por exemplo, ou no máximo quatro patas).

Não havia muita coisa desse tipo em Oostende. É como se os cidadãos daqui simplesmente raspassem o fundo do mar com uma rede e fervessem o que quer que surgisse nela.
A questão é que um cozinheiro em Oostende era capaz de pegar o que encontrasse num punhado de lama, umas folhas mortas e uma pitada de ervas de nomes impronunciáveis e fazer um almoço digno de ser vendido por uns 10 euros no pequeno mercado central.
E você pode andar por lá, cutucar uns moluscos, conversar por mimica com algumas senhoras donas de barraquinhas que por alguns sorrisos oferecem estranhos ensopados ou mariscos para provar. Eu nunca tive medo de comer coisas estranhas, até porque a última vez que me lembro de alguma ter me feito mal foi um sashimi que, de tão velho, estava prestes a ressucitar e ter a dignidade e o bom senso de se jogar fora sozinho. Eu provei de tudo. Oostende, a cidade onde tudo virava comida, finalmente encontrou o apetite que merecia.

Mas aí havia essa tenda. Muito tosca, no final do mercado, separada de todas as outras e aparentemente vazia. Não tinha placa nenhuma do lado de fora mas uma panela grande borbulhando levemente no fogo. Tijelas rústicas de barro tinham sido empilhadas ao lado da panela. De vez em quando alguém ia até ali e tirava uma concha do que quer que fosse e largava umas moedas no prato ao lado.
Olhei dentro da panela. Algumas coisas inindentificáveis vinham até a superfice e depois afundavam de novo. A coloração geral era marrom. As bolhas se formavam, cresciam e estouravam de modo viscoso com um ‘blop’ orgânico. Tudo poderia estar acontecendo naquela panela. Poderia haver uma geração espontânea de vida.
Eu ja havia provado tudo pelo menos uma vez(algumas coisas, varias vezes) Mas chega um momento na vida, em que é preciso usar o senso de auto preservação. Há momentos em que é preciso dizer não.

Tá suave!

  Eu não sei nem qual foi a última vez que ouvi essa expressão. Quer dizer, foi ontem, mas a ultima vez antes dessa deve ter sido mais ou menos quando montei uma bicicleta pela última vez. Minutos antes eu estava pedalando em meio a uma pequena batalha interna entre a viagem longa, o red bull e uma dor na coxa que me sugeria que a coisa toda de modo geral era uma péssima idéia.  Na distração, passei direto numa bifurcação(é...) e acabei enganchando a roda na guia. Não foi uma queda muito grande. Grande mesmo foi a vergonha de subir a avenida principal da cidade com a roupa rasgada carregando uma bicicleta cuja roda lembrava uma escultura do Franz Weissman, e um “fucking tourist" escrito na testa.

  O dono do rent-a-bike era tudo que não se esperava de um estabelecimento daquele tipo. Com cabelo espetado jaqueta jeans encardida e calça apertada, era basicamente um sósia do Kurt Russel num show de calouros, mas com uma noção de estilo que parou por volta de 1977. Ao que parece só falava holandês e parecia bem ameaçador quando me apontou o dedo. Fiquei observando a unha roxa de sujeira a alguns centímetros de meu rosto (como arma ofensiva ela tinha uma cotação bastante alta, especialmente se fosse algum dia usada na preparação de comida) e imaginando o que estaria fazendo quando decidiu vender o bar punk pra mudar de ramo.
  Depois ele me mostrou o valor que eu supostamente deveria pagar pela roda retorcida e eu não entendi se era uma multa ou uma proposta de sociedade. Mal me deu tempo de responder e foi atender outro cliente, mas aí ELA apareceu. Adriana - ja tinha se identificado como brasileira quando pegou meu passaporte - veio sorrindo do fundo e falando português.
  -Tá suave, ele tá brincando. Tem seguro é só pagar outro aluguel.

  Na outra ponta do balcão vi ele se segurando pra não rir, provando que babaquice é um patrimônio universal.
  
  -Acontece direto. Da próxima vez você pede uma com espaço pra mochila, fica menos desajeitado de andar.

  Me prometeram que o estresse todo da ida ia valer a pena e que eu ia amar isso aqui, mas menos de quatro horas depois de desembarcar eu já estava cansado, ralado e sendo acachapado por um maldito punk sujo nesse coletivo de arroto que eles aqui chamam de idioma. Não sei vocês mas a mim não parecia um jeito promissor de começar as férias.
Porém um sorriso consolador, um cabelo bicolor, uma voz quase infantil e uma gíria deliciosamente antiquada mudaram tudo.
E agora tá suave. =)

To até pensando em voltar lá hoje pra saber se minha nova musa tem uma bicicleta com espaço pra mochila ou, quem sabe, um coração com espaço pra mim.

Sobre a ignorância.

  Eu tinha uma certa empatia por ele. Quero dizer, imagino que os administradores do centro cultural que o contrataram não devam ter sido muito específicos sobre suas atividades. Algo como "só fique parado. Se acontecer alguma coisa, improsive".
  Talvez por isso quando lhe fiz uma pergunta ele se mostrasse tão impaciente.

  -Por favor, quando começa a apresentação do Bortolotto?

 Ficava de pé na entrada do lugar, segurando um radinho, ouvindo um desses programas de futebol. Aquele uniforme de segurança obviamente não lhe caía bem. Na verdade, alguém perfeitamente capaz de envergar bem uma camisa daquele tamanho era perfeitamente incapaz de assumir um posto de segurança e eu chuto que essa deve ter sido a causa da demissão do portador original da farda. Me olhou de cima a baixo. Não foi um olhar longo, só o tempo exato para, na opinião dele, deixar claro toda sua aversão a pessoas que pedem informação. Depois retomou a posição original e continuou observando a rua.

  -Sei nada de horto não senhor. - disse, já sem olhar pra mim - Pergunta pra moça lá dentro.
  -Mas não tem ninguém lá dentro.

 Olhou pra mim outra vez. Parecia perdido com a resposta.

 -T...T...Tenta no segundo andar, ela deve estar lá.
 -Já olhei, trancado.
 -E o mural?
 -Nada lá.

  A julgar pela sua expressão de desespero, eu acabava de leva-lo a um novo quarto escuro de sua mente. Dava pra ouvir o barulho da fechadura trancada quando ele piscava.

 -Moço e...e...eeeu sou novo aqui...

Não respondi. Ele tentou de novo.

 -Espera um pouquinho que a moça já deve voltar
 -Ok.


  Quem poderia culpa-lo? Ignorancia é a ordem do dia, não? Dia desses por exemplo a NASA deu uma coletiva para reporteres do mundo inteiro anunciando que uma bactéria num lago tóxico sobrevivia de um jeito que eles achavam impossível. E que isso trazia novas questões sobre o que poderia se considerar essencial à vida.
  Uma convocação geral para o dizer que o que era antes não é mais,  há muito mais para procurar e se sabe ainda menos do que se sabia. E que isso é extremamente excitante!

  Tudo era tão mais simples em outros tempos. O universo encontrava-se cheio de ignorância por toda parte, e os cientistas o exploravam como garimpeiros agachados diante de um riacho nas montanhas, buscando o ouro do conhecimento em meio aos cascalhos da insensatez, às areias da incerteza e aos insetos da religião.
  Vez por outra um deles se levantava e dizia algo como “Eureka!” ou “É isso! Descobri a Terceira Lei de Boyle!”. Todo mundo admitia que não sabia onde estava pisando. O problema é que a ignorância se tornou mais interessante, sobretudo a grande e fascinante ignorância sobre assuntos enormes e importantes como a matéria e a criação. As pessoas pararam de construir suas casinhas de sensatez no caos do universo e começaram a se interessar pelo caos em si - em parte porque era muito mais fácil ser especialista no caos, mas principalmente porque rendia ótimas letras de música.
 E, em meio ao caos, a ciência deixou de tentar fazer coisas úteis(como procurar a maldita borboleta que anda causando tempestades pelo mundo) e sairam por aí dizendo que era impossivel saber alguma coisa e que na verdade não havia nada que se pudesse chamar de realidade e que essa era a parte legal. Aliás, você sabia que talvez existam dezenas de pequenos universos por toda parte mas ninguém os vê porque eles estão curvados para dentro de si? Fala se isso não valeria um Grammy pro Arcade Fire?
  E aí toda uma nova classe de interjeições foi elaborada com o único objetivo de evitar qualquer contato pessoal desnecessário que acabe por, deus o livre, diminuir o tamanho de nossa tão valiosa ignorância. Nada que não possa ser respondido com "pois é" "né?" "anham" e afins pode ser digno de nota. Funciona magnificamente por esses lados.
  Cento e cinquenta anos depois da invenção do elevador as pessoas desenvolveram um vocabulário tão vasto que extrapolou o seu interior e se tornou um modo comum de iteração social em grandes cidades como SP. Quero dizer, ninguém te aborda no cafézinho da firma com um “Ta sabendo? A proporção, em massa, dos elementos que participam da composição de uma substância é sempre constante e definida pelo volume e pressão, independente do processo químico pelo qual é obtida.” Como alguém responderia isso sem tornar a conversa PESSOAL demais?
  E enquanto eu esperava alguma coisa acontecer, essa centenária tradição era competentemente exercida pelo guardinha que nada sabe.

  -Joga bola esse Lucas heim!
  - Ô...
...

  - Puts que nó cego…subiu na guia com uma vaga desse tamanho!
  - Né…

...

  - Viu o negócio lá no Japão?
  - Anham...

  Eu gostei do jeito dele. É alguém que definiticamente sabe viver melhor que eu nessa cidade ignorante, nesta época ignorante. Quero dizer, eu poderia acampar ali na porta e ao final de uma semana ainda não saberia seu primeiro nome. Ao menos ele não tentava me convencer de algo(Ou que algo não existia, outra obsessão destes dias).
  Era o dia errado do show e a “moça lá de dentro” já tiha ido embora. Mas quem poderia saber, não é verdade? Quem sabe de qualquer coisa nessa cidade? Lá pelas estepes cinzentas de Pinheiros, nem mesmo a mais absurda das hipóteses soaria absurda. Por aqui, ao que parece, só se tem uma certeza inabalável:

  -Parece que vai chover hein?
  -É...

457

 "A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos nossa casa!"  Trecho do diário de José de Anchieta.


  Acho que essa cidade existe bem à beira da realidade. Ela é cheia de coisinhas sem importância que eventualmente conseguem atravessar para o outro lado. Por isso mesmo, as pessoas em São Paulo levam as coisas a sério. Como as histórias.

  Porque histórias são importantes.

 As pessoas pensam que dão forma à história quando na verdade é justamente o oposto. A história costuma mudar as pessoas que pensam estar mudando-a. Porque a história não nasceu ontem, se é que vocês me entendem.
 As histórias existem, independente de seus participantes. Se você sabe disso, esse conhecimento é poder. Essas grandes fitas vibrantes de espaço-tempo modelado, agitam-se e desenrolam-se pela cidade desde muito antes de os jesuítas chegarem. E evoluíram. Histórias mais fracas se perderam no tempo, mas as mais fortes continuam por aí, engordando a cada vez que são recontadas.
  Sua simples existencia, caro leitor, forma um desenho tênue, porém insistente no caos do universo. As pessoas deixam sulcos profundos o suficiente para que outras pessoas sigam da mesma maneira futuramente e ISTO é a história. Novos atores repetem o trajeto e os sulcos ficam mais profundos.
 É disso que se trata São Paulo. Pessoas, e suas histórias, identicas às anteriores. Rotinas que se reeditam há 457 anos e seguirão assim porque há 11 milhões de pessoas afundando os sulcos da realidade. Em literatura chamam isso de casualidade narrativa. Significa que a história, uma vez iniciada adquire uma forma. Ela capta as vibrações de todas as outras versões já vividas. Por isso a história vive se repetindo o tempo todo. 

  Partindo desse princípio, é justo dizer que a cidade é uma espécie de parasita. Todas as histórias se moldam em torno dela. Eu tive um amigo que largou tudo e mudou pro interior da Bahia resmungando que isso aqui estava “sugando” ele. Faz sentido. Parte do conceito de se morar em SP é isso. É inconscientemente entregar sua vontade, sua força, sua criatividade e principalmente, o controle sobre sua própria história, a um nada abstrato que é a própria história da cidade.
 O curioso é que ainda assim as pessoas se orgulham dela. Declaram seu amor, fazem poemas e até batizam blogs em homenagem à sua condição meteorológica.
 Se você sacou o tamanho dessa dualidade é aqui onde, com sorte, esse texto pode fazer algum sentido. Observe: 
  Tudo aquilo que você viveu em função da História Maior escrita desde 1554 permaneceu por aqui, sua própria versão repetida história. Logo, você também se torna parte daquilo que o consome, certo? Portanto, essa relação de mútua dependência te faz também parte indissolúvel da cidade. Sei lá em que buraco de calçada eu vou praguejar contra a história de alguém  e sabe-se lá também como andam tratando minha por aí. 
  Vocês eu não sei, mas foi a isso que celebrei na semana passada. Porque eu não simplesmente moro aqui. Eu reivindico orgulhoso minha contribuição à formação dessa pocilga. Fato é que,  por toda essa intersecção temporal que falhei miseravelmente em explicar,  me sinto parte de São Paulo e tenho tanto orgulho disso como tenho de ser quem sou. 

Ultimate Dumbing Championship

 Eu vivo dizendo que pra ser instrutor de academia é preciso ter a constituição física de um touro e processos mentais equivalentes. Mas a conversa que eu tinha na fila do supermercado com um ex instrutor beirava o surreal. Veja como é ruim ser grande e forte: ele reclamava da demora no caixa rápido e fez uma -
na falta de melhor definição - anedota, com caixa rápido/caixa lento, e eu covardemente olhei para o chão escondendo a vergonha, quando na verdade poderia te-lo avisado do avançado estágio de sua deficiencia mental.  Me pergunto quantas outras pessoas podem ter passado pela mesma situaçao e se eu não era, em parte, responsável por ele acreditar que ser imbecil era uma atitude socialmente aceitável.
  Mas até aí tudo bem, era só um momento desagradável Seinfieldiano. Só que ele me olhou com aquela cara e as coisas saíram de controle.

  Era a cara de quem obviamente superestima a própria capacidade cognitiva e acredita que teve uma idéia genial. Ao longo da história, pessoas estúpidas fizeram aquela mesma expressão e o resultado invariavelmente envolvia toda sorte de alarmes e sirenes..e em alguns casos, pessoas correndo e guerras começando. Aquele sorriso mongolóide era o prenuncio da inevitável merda vindoura.
  Dizem que a estrada para o inferno está pavimentada de boas intenções. Não é bem verdade. A estrada que leva ao Inferno está pavimentada de atendentes de call center, gerentes de RH e gente estúpida com ideias geniais. Se o mundo é justo, o Tinhoso passa com uma cortador de grama sobre eles quando fica entediado.

Existe um truque que se faz com uma ervilha e três copinhos que é muito difícil de acompanhar, e uma coisa parecida está para acontecer. A velocidade do texto será reduzida para permitir que se acompanhe a prestidigitação.

---- ---- ---- ---- ----

   O caixa rápido do supermercado consiste em dois caixas enfileirados para compras menores que 15 volumes. Nosso amigo Einstein está com um carrinho cheio mas acho que já ficou claro aqui que o ele e o resto do mundo sofrem de mútuo problema de compreensão, certo? Pois bem, sigamos…
   No primeiro caixa há uma negona de quase 2 metros de altura e sorriso contagiante. Aquele tipo de gente que faz o seu dia melhor só por existir, não importa quão ruim ele tenha sido. A ela, chamaremos de Caixa 1.
   Logo ao lado, está aquele a quem chamaremos de Adversário, Anjo do Poço Sem Fundo, Dragão da maldade, Duque do inferno, Filho da Mentira, Pai da Cretinice, Senhor da Indolência, ou simplesmente, Caixa 2.
   Na porta, um japonês gordinho de meia idade com um colete escrito "segurança". Na real as únicas características fisicas de um segurança que ele parece possuir são a capacidade de permanecer imóvel de pé por horas e um razoável controle da bexiga.

    Observem com cuidado. Lá vão os copinhos...

  A idéia genial do gigante acéfalo à minha frente consistia em dividir as comprar entre Caixa 1 e Caixa 2, com a esperança de que assim fosse tudo mais rápido. As poucas conexões neurológicas que ele é capaz de realizar não o fizeram notar que havia mais gente na fila.Caixa 2 ainda terminava de passar as compras do cliente anterior quando percebeu a ação dele e resolveu ser babaca também: Misturou as compras do gigante com as do cliente anterior, que obviamente protestou. Gigante, que neste momento enchia a esteira da Caixa 1, foi até lá ver o que ocorria e uma pequena discussão se iniciou. Caixa 2 afirmava que não sabia(mentira) quais eram as compras de quem e que ele não deveria dividir em dois caixas pra evitar esse tipo de confusão. Ao que Gigante respondia, já num tom mais alto de voz, que se o caixa rápido fosse mesmo rápido isso não seria necessário.

E foi aí que aconteceu...

  Na cerimonia divina de 2010(*), quando os envelopes forem abertos, a frase “Se o senhor não fosse um idiota ” proferida em alto brado por Caixa 2, certamente figurará entre as indicadas para o premio de mais inoportuna do ano. O próprio Gigante pareceu compartilhar desta tese, pois desferiu um violento tapa no ouvido do interlocutor.
  Caixa 2 quase caiu com o baque, revirou os olhos, sua boca abriu e fechou mas a voz optou sabiamente por não sair. O grandalhão ainda proferiu alguns impropérios antes de ser acalmado por Caixa 1. Ai o segurança japonês, que também não era nenhum físico nuclear, aplicou uma gravata na pilha de esteróides e a confusão recomeçou. Na verdade,  depois de duas ou três cotoveladas ele já considerava seriamente largar o emprego no supermercado e ir plantar Cogumelo do Sol em Mogi, mas apesar dos golpes nosso obstinado herói nipônico continuou pendurado no pescoço do Juggernaut. Com uma voz de quem já calculava o preço de um lote no vale do Paraíba, gritou pra chamarem a polícia. Outras pessoas, inclusive o imbecil do Caixa 2 que começou tudo, partiram pra tentar segurar o monstro.
    Da minha parte, decidi que meia duzia de cervejas e uns pacotes de miojo não eram caso de primeira necessidade e da forma mais discreta possível, fui me dirigindo à saída, a tempo de ver o policial da base na praça correndo pro local.

  Na volta ainda fiquei pensando que deve haver algo muito errado numa sociedade que confere certa "superioridade moral" a cretinos como Caixa 2, só porque pretensamente são "corajosos" ao arriscar a própria integridade física pra dizer o que pensam sobre terceiros. Superior sou eu amigo, que assisto tudo caladinho e só reclamo a uma distancia segura! Pra que levar um safanão na orelha se tenho internet em casa? Visite o setor de traumatologia de um hospital e você encontrará uma grande quantidade “gente sincera”. No fundo é só impulsividade, necessidade de auto afirmação e testosterona. Essa pseudo “honestidade” não tem nenhum efeito prático para além dos hematomas. Já no twitter, posso ser sincero e corajoso no conforto de meu sofá.
  Tenho fé que um dia a humanidade aprende!


(*) Dizem (inclusive neste blog) que o deuses, sejam lá quais forem, jogam com a vida das pessoas. Eu tenho uma nova teoria. Acho que os deuses se divertem sim, ás custas dos mortais mas apenas deixando-os em paz. Se nos observam com atenção, sempre foram fascinados pela habilidade humana de dizer exatamente a
coisa errada na hora mais errada possível. E não falo de frases como “é perfeitamente seguro” ou “cão que ladra não morde” mas de frases bem mais simples com efeitos equivalentes ao de um bulldozer sobre um pé de alface. Todo ano esses deuses se reunem para premiar as atitudes mais estupidas da humanidade.
Eventualmente, quando já estão bêbados, aproveitam pra definir os futuros ganhadores da megasena ou alvos de raios.

Doce rancor

Anos depois a reconheci no metrô. Foi totalmente por acaso,  não sabia nem que morava em São Paulo agora. Carioca, era a última conexão com uma vida que parecia nunca ter sido a minha. Da casa da matriz, dos onibus noturnos, do drum and bass. A última vez que tive notícias, pelo irmão, tinha se mudado pra algum  lugar obscuro da Europa nem perguntei pra que. Se formou finalmente em psicologia e parecia bem.
  Umas semanas e uns telefonemas depois, sentava do lado oposto da mesa e dissertava sobre alguma coisa desinteressante que tinha a ver com o monotrilho.
  Do que me lembrava não mudou muito, na verdade. Falava de um jeito mais arrogante, talvez, mas não chegava a ser incomodo. Ah e ganhou uns kilos, mas eu não ando lá em condições de atirar a primeira pedra.
   Em algum momento antes mesmo de o garcon parar de me ignorar, o papo já tinha caído na minha vida. Eu não percebi na hora que a intenção inicial era justamente essa.


  -Sei lá, parei de correr pra conseguir tudo de uma vez. Eu tava ficando louco e frustrado.
  -Frustrado é inevitável, sim. Mas não te imagino correndo com nada.
  -Haha eu corria muito naquela época.
  -Olha...

  Na lingua espanhola, colocam um ponto de interrogação de ponta cabeça para avisar que você está prestes a receber uma pergunta. Aquele era um “olha” que avisa que você está prestes a receber uma rajada de AK47.


  - Tá eu sei que andei meio procrastinador - respondi, ignorando o perigo iminente
  -Nem acho que é isso. Sempre acontece alguma coisa. Tem sempre um problema te impedindo. Você é medíocre e tem medo de deixar de ser. Seu medo é que faz de você tão pequeno.  
  -Não é. Eu sempre gostei de tudo planejado. Eu sou muito prudente e...
  -Prudencia, procrastinação você  pode dar o nome que quiser Rique, voce pra mim é um cuzão. Sempre foi. Com a mudança, com a faculdade, comigo… com o que mais acontecer.
  -Esse é seu parecer pessoal ou profissinal? - repondi tentando sorrir. Tenho certeza que deve ter sido um sorriso equivalente áquele do  Holyfield na luta com o Tyson enquanto, coberto de sangue, fingia ignorar um pedaço de sua orelha na mão do juiz.
  -Pessoal. Eu não dou consultas grátis.

  E assim, depois de um silêncio constrangido, o jantar, foi diminuindo a velocidade em conversas casuais e incoerentes sobre os velhos tempos. Pouco menos de três anos tinham se passado mas parecia uma vida. Três anos nessa cidade SÃO uma vida. E acrescente a isso a capacidade ruminante dela. O que o complexo sistema digestivo de um camelo faz com comida, ela faz com ofensas. Uma resposta atravessada, uma despedida que não chegou a acontecer, um presente que ela nunca entregou, tava tudo lá, pronto pra ser trazido de volta e pacientemente remastigado, cruelmente estocado em cada resposta. Ela seria capaz de me ofender falando sobre o tempo. Era a personificação da mágoa.
  E, olha, ela tinha material. Sempre foi boa ouvinte, talvez por isso tenha tornado essa sua profissão (aliás taí uma qualidade injustamente ignorada. Todo mundo sabe que a maioria das pessoas não ouve. Quando alguém está falando, aproveitam o tempo para pensar no que dirão em seguida. Ouvintes verdadeiros sempre foram reverenciados nas culturas orais e recompensados pela raridade de seu valor. Ha um bom orador em cada esquina e qualquer um pode citar 15 grandes escritores. Mas um bom ouvinte é dificil de se encontrar. Ou, pelo menos, de se encontrar duas vezes). Mas de tanto me ouvir talvez ela tenha reunido argumento suficiente pra pensar no que gostaria de dizer.
  Divertido e acalentador. Nessa loucura metropolitana as relações se tornam cada vez mais descartáveis e é agonizante a facilidade com que as pessoas se perdem umas das outras. Ser esquecido é como perder uma pequena parte de si mesmo. Por outro lado, um rancor forte o suficiente para atravessar os anos e o Atlantico, é uma dessas pequenas coisas que fazem a vida valer a pena.  Se alguém te odeia com dedicação maior que essa,  sinceramente, amigo, você venceu na vida.

 - Sabe, nunca tinha pensado nisso. Acho que você tem razão.
 - Né…

  Virou o olhar pra janela e ficou um tempo observando o movimento na rua, quem sabe pra esconder a decepção. Talvez isso lhe rendesse mais alguns anos preparando a tréplica.
  É só uma teoria, claro, mas acho que tudo se resume a crença. O que quero dizer é que a forma como as coisas terminaram a magoaram de tal forma que ela tinha todo um discurso pronto que, ela acreditava, me humilharia e a vingaria.ela tinha FÉ nisso. Não precisava de uma confirmação.
  E aí estava o problema.
  No fundo no fundo ela não esperava realmente o reencontro. Porque a crença na verdade é um fim em si. É só uma forma das pessoas se sentirem melhor. Convenhamos, a fé não PRODUZ nada ( a despeito do que dizem as escrituras sagradas, quando se trata de, por exemplo, mover montanhas, a gravidade costuma ser consideravelmente mais eficiente que a fé).
 E era a fé que a cegava. Ela jamais entenderia a beleza daquele momento, jamais saberia o tamanho da minha gratidão...


  -Tá sorrindo de que?
  -É muito, muito, bom reve-la…

  E talvez os acontecimentos recentes tivessem mesmo provocado alguma alteração na natureza da realidade, porque, enquanto comiamos, pela primeira vez na história, um bem-te-vi cantou na Avenida Santo Amaro.
  Ninguém ouviu por causa do ruído do tráfego, mas que estava lá, estava =)

A justiça do acaso.

  Foi lá pelo meio do ano passado se não me engano. Eu tinha tirado férias num desespero de mudar de emprego que era comovente. Tipo epopéia mesmo. E numa dessas entrevistas eu a conheci. Foi das mais traumaticas experiências da minha vida (com exceção talvez de uma ocasião em que acordei sentado numa calçada da alameda franca sem celular e sem carteira, depois de ter sido expulso do extinto clube Atari mas o spoiler dessa história já é suficientemente bizarro pra contar o resto).

  Se apresentou como "diretora de recursos humanos" e entrou na sala acompanhada de uma mocinha que parecia ser bem simpática. Apresentou-a como "es-ta-gi-a-ria-em-trei-na-men-to" com um prazer quase sexual ao enfatizar a função café com leite da pobrezinha, que parecia algumas silabas mais franzina após a apresentação. Ela me olhava de um jeito que fazia parecer que responder suas perguntas era mera formalidade, que ela simplesmente arrancaria a verdade da minha mente enquanto tentava me concentrar no calendário em cima da mesa. O olhar dela era tão poderoso que me admirava não caíssem pequenos blocos de concreto cada vez que ela encarava a parede atrás de mim. Foi tão taumático que ouvir dela que não tinha o perfil ideal para a vaga foi quase que um alivio pois significava que eu tinha alguma perspectiva de sair vivo daquela sala.
  Coisa de uma semana depois ela tava num desses jornais do inicio da tarde numa sessão que dava "dicas profissionais" (o que é meio paradoxal, uma vez que deve ser unanimidade entre as empresas a opinião de que assistir televisão à tarde ao invés de trabalhar provavelmente não seja a atitude profissional mais recomendada) e quem aparece como a "especialista" em alguma coisa? Ela! Com o mesmo estilo austero e confiante que me lembrava...transbordando credibilidade.
 Lance é que eu tava tão confiante que essa moça lia minha mente que quase corri pra cozinha fazer um capacete de papel alumínio a la Joaquin Phoenix em Sinais pra terminar de assistir a matéria.

  Mas no fundo, no fundo, eu sou um otimista. Se há alguma coisa que me sustenta nos tempos difíceis é a profunda e definitiva certeza de sair relativamente ileso e de que o universo ou o acaso, cuidarão de mim no final.
  E o mundo meus amigos, o mundo é ainda menor do que você pensa, o mundo é um banheiro de kitnet no Copam você pode acretidar.
  E o acaso é implacavel. Implacável!
  Imagine por acaso eu estava na balada, meses depois, e por acaso ela tá dançando do meu lado. E por acaso eu conhecia de vista algumas pessoas do grupinho de amigos dela e por acaso ela não me reconheceu, veja você que demoninho do mal é esse tal de acaso.

   Sabe aquela prática comum em locais onde pessoas se comunicam (leia-se qualquer cidade exceto Curitiba) de oferecer sua bebida pra quem está na mesma roda que você? Entenda, não é uma obrigação aceitar, é apenas um ato de sociabilidade. Ela por exemplo tinha a opção de recusar todas as vezes que ofereci, o que me exclui de qualquer responsabilidade pela postura dela depois de pouquissimo tempo.

 Tudo no universo existe em função do nome. Mude o nome e você muda a coisa. É claro que, entre um e outro, há uma enorme burocracia e uma infinidade de outros elementos envolvidos. Mas, paracosmicamente, é só isso mesmo.Agora por exemplo a "diretora de Recursos Humanos" era "a tia da balada".
Em termos práticos, aquilo significava que de uma bela mulher de fala segura, postura ereta e jeito arrogante, ela estava reduzida a uma semi baranga num vestido que transitava impunemente entre o vulgar e o cafona e que obviamente desconhecia os proprios limites etílicos dançando como se sua idade fosse na verdade o hiato entre esta noite e a última vez que tentara aquilo em público.
  Eu não posso mensurar o quanto era divertido, amigos. Não por me sentir vingado (talvez um pouco, sim) ao imaginar a ressaca moral em que ela estaria envolvida no dia seguinte, mas por perceber que até a "especialista da TV" pode muito bem ser tão ridicula quanto você ou eu quando destituida de sua proteção hierárquica corporativa.

  Eu lembrei dessa história porque, limpando minha caixa de e-mails ontem, achei o convite para uma festa (que eu nem fui) em comemoração ao aniversário da empresa e anexo vinha um artigo escaneado sobre DICAS DE COMPORTAMENTO em festas de empresa. Eu ia dissertar sobre como achava babaca convidar alguém a uma festa e anexar um código de conduta(sobretudo um que recomende comedimento no consumo de bebidas alcoolicas), e como aquilo era tão chato quanto aqueles papeizinhos em convite de casamento com “a  lista de presentes encontra-se na…”. IA  meus amigos eu IA porque descobrir o autor do artigo no final, me fez rir como não ria desde o rebaixamento do Corinthians.
  Descobrir o autor do artigo me fez aprender uma lição pra vida. De que tudo que você precisa quando as coisas forem mal, é ridicularizar alguém. Não quero bancar o babaca auto ajuda, mas, vai por mim, quando tudo mais perder o sentido, quando nem toda tequila do mundo for suficiente, quando nenhuma perspectiva de futuro lhe parecer satisfatória e a dor for insuportável, não se desespere! Corra pra balada e trate de entupir de vodka a primeira recrutadora de recursos humanos que encontrar.
.

Um canalha em três atos.

Pra ler ouvindo: Chromeo - Don't turn the lights on

Sobre bolinhos


Primeiro ato - Cinismo
  Ouviu-a falar alguma coisa antes de ligar o chuveiro. Não entendeu o que era e também não se importava. Conhecia a figura havia coisa de um ano, nunca teve paciência pra conversar por muito tempo e provavelmente não teria agora. Não eram 10 horas e a manhã seria longa.
  Preferia a personagem que ela incorporara na noite anterior: um vestidinho curto cujo conteúdo encontrava-se convenientemente carente e excepcionalmente receptivo...
  Terminara com o namorado dias antes e sorria mais que de costume(por pura obrigação social, é bem verdade). O ex tinha deixado as coisas dela numa sacola velha na tarde anterior, o que garantiu um saudável descenso em seu ego (em situações normais insuportavelmente inflado). A despeito dos contorcionismos faciais pra simular indignação enquanto ela contava, entendia perfeitamente o cara. Menos por solidariedade de gênero e mais por ela ser quem era. Do tipo que colocava as próprias fotos de fio dental no facebook (com tags personalizadas).
  Ele bebeu descontroladamente aquela noite, antes dela aparecer. Primeiro porque a noite estava uma merda, e segundo porque parecia que ia piorar. Quando ela ignorou os amigos e foi direto cumprimentá-lo, entendeu imediatamente o que estava acontecendo e o que poderia acontecer se fizesse tudo direitinho. Agora só precisava relaxar, tentar parecer sóbrio e ser o hipócrita que sabia ser...
  Era um cara comum, não era bonito. Só tinha chance porque elevava o cinismo ao status de virtude. É claro que aquele tipo de coisa - de dizer exatamente o que as pessoas queriam ouvir - falhava miseravelmente a longo prazo ele sabia. Mas, merda! Era só um bêbado cheio de testosterona numa noite de rara sorte. E se você não puder justificar todo tipo de atitude cretina com o fato de ser só um bêbado cheio de testosterona numa noite de rara sorte, então a sorte era absolutamente dispensável, a testosterona ficava pra academia e podia passar a noite inteira à base shweppes.

Segunto ato  - Constrangimento
  Maquinava uma boa desculpa para mandá-la embora, quando ela saiu do banheiro enrolada com a toalha apenas no cabelo, o que o fez mudar de idéia momentaneamente. Pra falar a verdade, era óbvio que ela pensou na cena toda e fez de um esforço parecer sexy, mas não tinha a classe que julgava ter e exalava todo o sex appeal de uma propaganda de Catuaba Selvagem. Tudo bem, era mais do que suficiente pra uma manhã de domingo; ele não ia reencenar o Ultimo Tango em Paris, afinal. A real é que qualquer conversa acabava, invariavelmente, em queda livre.

- Pra que esse aquário? Você tinha peixe?
(Não. Eu criava gado)
-Tinha, um Betta.
-Hmm ti fofo! Qual era o nome dele?
-Tem que dar nome pra peixe?
-Tem né! E cadê ele?
(escondido embaixo do sofá!)
-Morreu.
-De que?
(bateu um papo contigo e perdeu a fé na vida)
-A moça que limpa aqui disse que foi fome. Prefiro acreditar que foi solidão.
-Pode ser...e esse ap tem uma energia pesada né.
(Oh god! feng shui de boteco a essa hora da manhã?!)
-Ah eu não acho.
-Tem muito preto.
-Não gosto de coisa colorida.
-Compra outro?
-Outro apartamento?
-Outro betta. Deve ter no e-bay.
(claro, eles vão entregar enrolado num jornal. Don Corleone mandou lembranças)
-Acho que não vai ter não moça.
-Menino tem de tudo no e-bay. Eu compro até clembuterol lá.
-Esse treco não é proibido?
-No e-bay tem de tudo.
-É perigoso, moça. Tu fica uns 20 minutos numa taquicardia do cacete. Periga até sofrer uma parada cardíaca
-Ah, 20 minutos é pouquinho.

  E sorriu. Cara, ela era linda. O cabelo, as tatuagens, o cruzar de pernas, o sorriso, até o jeito patético de tentar parecer sensual tinha sua beleza... Vinte minutos não era pouco. Se ela pudesse passar vinte minutos sem dizer nenhuma estupidez, ele pediria pra ela nunca ir embora.
  Utopia, claro.  Agora por exemplo, os peixes a haviam feito se lembrar de uma cachorra que teve quando adolescente. A Loba. E ele se perguntou que tipo de gente chama uma cocker spaniel de Loba, e porque ele precisava ouvir aquilo. Mas não dizia nada, só sorria e fazia cara de quem se interessava imensamente por biografias caninas.

 - Olha, eu acho que meu pai vem aqui hoje. Acabou de me mandar uma mensagem - disse, olhando para um celular delator, que permanecia criminosamente apagado e silencioso. Ela percebeu.
 - Sei. Bom, é melhor eu ir indo então. Também tenho um dia cheio.
 (cheio, sei, cheio de fossa pelo ex, sorteve na frente da televisão com alguma comédia romantica)
 - Ok então. Não me leva a mal né? É que faz tempo que ele não me visita.
 - Magina, tudo bem.

  Tinha uma coisa no olhar que o fez se sentir mais relaxado: Decepção. Ai sim! Sua zona de conforto. Não que fosse exatamente confortável, mas pela primeira vez, desde que acordara, sentia-se atuando dentro de sua especialidade. De tao recorrentes, olhares de decepcao faziam com que ele sentisse que as coisas
estavam em seu devido lugar. E ficou ainda mais fácil com ela vestida.

Terceiro Ato - Bolinhos
  Enquanto esperava o elevador na volta, pensou na falsidade daquilo tudo. Ele não era exatamente bonito e deveria se sentir agradecido pela oportunidade de decepcionar alguém do nível dela, mas só fez piadinhas crueis com tudo o e ela falava. E o que era ele, afinal? O que fazia dele melhor, mais capaz ou sequer mais inteligente que ela? Não que se arrependesse. Ah não!  Ela ja tinha pincelado clemb na conversa, mais meia hora daquilo e ia discutir arroz integral.
  Mas aquele tipo de auto consciencia era novo pra ele. Carregava uma explicação inconvenientemente plausível. O que vez por outra lhe tirava o sono, o que tinha medo de dizer em voz alta o que nao confessaria nem se alternativa fosse uma manha de ressaca com a a genia do vestido curto. O que ha mais tempo do que poderia lembrar o transformara num canalha mentiroso e hipocrita. Mas que era de um obvio tao ululante mas tao ululante que valia somente para fins de registro: ele nunca seguiu em frente de verdade, nunca virou a pagina nunca superou o fim e nunca permitiu que nada ficasse sério demais desde então. E o motivo por que vinha adiando tão boba conclusão era que nao tinha a menor idéia de como proceder, simples assim.
  Talvez fosse o caso de procurar alguma dignidade no e-bay.

  Mas isso podia ficar pra depois. Tinha jogo importante no Morumbi aquela tarde e era melhor evitar o transito...

Por um bom porre. Por uma boa vida.


Provavelmente alguma coisa no limão lá pela quinta tequila o fez perder a conta das seguintes. Pra facilitar a contagem, a garçonete não limpava a mesa e uma pequena e acusadora pilha de copos dava a impressão de que um drunk poker com uma quantidade ilegal de participantes havia acontecido por ali.
 Levantou e, naquele exato momento, o motorista do Movimento de Rotação e Translação da Terra deve ter sido fechado por um motoboy maluco e pisou no freio de uma vez. Fato é que o chão se mexia caoticamente.
   Abriu as pernas de maneira ridícula pra não cair e esperou o bar parar de balançar. Puxou a cadeira num movimento que não chegava a ser consciente, vindo de um cérebro fragilizado demais para demonstrar mais que um vago interesse nos procedimentos básicos, e sentou rapidamente, antes que a gravidade percebesse o que estava acontecendo. As pessoas da mesa ao lado ja olhavam com certa atençao e provavelmente faziam comentarios maldosos. Acendeu um cigarro esperando a gravidade perder o interesse nele e tentou outra vez, agora com relativo sucesso.
   A garçonete perguntou "você tá bem?" com a naturalidade de quem faz essa pergunta várias vezes ao dia. My bad, a resposta dele envolvia ironia, lingua enrolada e os peitos dela. Ela o ajudou a se sentar de volta e ele podia repetir o a ironia, podia diverti-la com a lingua enrolada, pode simplesmente agradecer, mas preferiu repetir o comentário babaca a respeito dos peitos. (absolutamente verdadeiro, é bem verdade, pero colossalmente desnecessario).
  Ela sorriu. Nao era um sorriso frio. Ele ja havia recebido muitos sorrisos frios antes. Nao. Aquilo era o equivalente facial a um campo de trabalhos forçados na Sibéria. Era o tipo de sorriso que separa homens de meninos. Era a expressão de quem pretedia colocar, senão um ponto final, ao menos uma vírgula em sua existência. Era o modo mais sutil que ela encontrou de lhe confidenciar como adoraria esquarteja-lo com um alicate de unha.


.

Escreva o título aqui:

Blogar lentamente é o re-estabelecimento da máquina como agente da expressão humana, ao invés de seu chicote e de seu recipiente. É a suspensão voluntária da roda de hamster girando à velocidade da luz ditando as regras da blogagem altamente efetiva. É uma imposição de temporalidades assíncronas, onde nós não digitamos mais rápido para alcançar o computador, onde a velocidade de recuperação não necessita do mesmo passo do consumo, onde boas e más obras são criadas em seu devido tempo. É a resposta silenciosa à sociedade consumista do século XXI que impinge maior importância ao volume que à qualidade da informação.

O trecho acima é parte do "Manifesto do Slow Blogging" e eu só colei aqui pra dizer que todos temos nossos preconceitos, em maior ou menor grau, mas todos temos. Eu por exemplo admito profundo preconceito com gente que fala "sociedade consumista do século XXI", gente que chama rega bofe de "comitê" e gente que participa do MNN. No fundo acho que to falando do mesmo grupo, mas é o primeiro estereótipo que me vem à mente assim de cara.
  E porque eu to dizendo isso? Primeiro porque o blog é meu, claro e é magnifica essa coisa de poder dizer o que quiser. Depois porque eu queria poder explicar porque eu passei esse tempo sem postar. A explicação é que não tem explicação.

  No ápice da minha arrogância (causada por TRÊS pedidos de regularidade no post abaixo), e pelo "fenomeno corinthians" (quando não posto nada meus seguidores aumentam, quando posto com regularidade, eles diminuem) pensei em evocar o "writter's block" pra justificar a falta de atualizações mas vi o filme do Capote ontem e saquei que estou a cerca de 8 ou 9 reencarnações de me tornar um "writter", para então (se por um acaso o amor da minha vida assassinar 4 pessoas a sangue frio e me convidar pra ser testemunha de sua execução) adquirir o direito de ter um "block".
   Também não vou repetir nenhum desses clichês manjados do tipo "to sem tempo pra nada" porque quem me segue no twitter sabe que não é bem verdade. Nem vou dizer que me faltava assunto porque 93% das pessoas que dizem que falta assunto na verdade são babacas sem conteúdo que inventam estatísticas para validar argumentos vazios.
  Não, nada disso. O motivo deste post  era genial, original, inesquecível e ia me transformar em uma referência do pensamento contemporâneo. Eu me tornaria um mito da nova era e transformaria vocês em pioneiros do conhecimento.  Quando aquelas neo-intelectualóides da FAAP comentassem com vocês sobre a importância de Ricardo Siqueira para o entendimento do mundo em que vivemos, vocês, caros leitores, soltariam risadinhas sarcasticas e contariam como conheceram o unico vencedor de 4 prêmios Nobel quando ele era apenas um blogspoter de avatar gray sepia pagando de personagem de Hero no Facebook(--->)

  Mas esqueci o que ia dizer no caminho do trabalho pra casa, o que me faz pensar quantas pessoas podem ter perdido a cura do câncer enquanto se irritavam com uma velhinha contando moedas no caixa do metrô.

O que eu garanto com certeza é que a minha carteirinha do MNN ainda não chegou e, a despeito de toda cretinice que eu já tenha cometido (para maiores informações, consultar ex namorada(s) ) eu nunca fiz nem nunca faria nada tão cretino quanto aderir ao Slow Blogging.

 Era preguiça, sabe...


.

Ponto e Contraponto

Ponto
    Era um esqueleto.

  Um esqueleto de pele bronzeada esticada quase a ponto de romper sobre os ossos delicados de seu crânio. O esqueleto tinha cabelos louros e compridos e lábios perfeitamente delineados. Parecia o tipo de pessoa que as mães apontam resmungando "Tá vendo? Isso é o que vai acontecer com você se não comer legumes!"
  Ela passeava entre as prateleiras e se sentia desejada, com aqueles olhos afundados em órbitas gloriosamente ensombrecidas.
  Parecia um cartaz da campanha contra a fome, mas vestindo M Officer.

Contraponto
  Usava um vestido preto extremamente constrangedor. Não por mostrar mais do que os 10ºC daquela noite permitiam, mas pela instantanea aversão que a visão provocava.

  Para além da aversão, mostrava dois aspectos exagerados de personalidade: era mais gótica que a aparente idade permitia ser e estava exatos 38 cheese burgueres mais fofa que uma musa renascentista.
  Na verdade não parecia ter sido avisada de nenhum dos dois. Dava até pra traçar um perfil estereotipado:
   Gostava de ler Edgard Alan Poe e desconfiava de que ela própria tinha um lado oculto não-explorado. Para ampliar seus aspectos mediúnicos, usava muita jóia de prata e sombra verde nos olhos. Achava que parecia elegante e romântica, e de fato pareceria se perdesse mais uns quinze kilos. Estava convencida de que tinha anorexia, porque toda vez que se olhava no espelho via uma pessoa gorda.
  Quando me percebeu observando, cerrou os olhos e me fitou com o que parecia ser o seu "olhar de mistério".
 Foi tragicômico.

Acabou...


Teorema: O futebol é uma caixinha de surpresas.


Demonstração [Voeller]: Por Reductio ad absurdum, suponha que o melhor time sempre vence a copa do mundo. Então o Brasil não teria ganho 5 vezes; teria ganho todas. Quod erat demonstrandum

Cinquenta

Rest in Peace




  Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia, parece clara a sentença, clara, fechada e conclusa, uma criança será capaz de perceber e ir ao exame repetir sem se enganar, mas essa mesma criança perceberia e repetiria com igual convicção um novo dito, Sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade, e este dito, sim, dá muito mais que pensar, e saborosamente imaginar, sólida e nua a fantasia, diáfana apenas a verdade, se as sentenças viradas do avesso passarem a ser leis, que mundo faremos com elas, milagre é não endoidecerem os homens de cada vez que abrem a boca para falar.

José Saramago (16/11/1922 - 18/06/2010)





Cronica de uma tarde infeliz (parte 2)

nota para outsiders: Embu-Guaçu, ou apenas Embu é uma cidade a 58 km da capital paulista, ainda na região metropolitana, com acesso pela rodovia Régis Bittencourt(BR 111) que se liga ao trecho sul do Rodoanel(SP-21) recém inaugurado.


PRIMEIRA PARTE AQUI



  Eu costumo dizer que a cidade não nasceu. Ela aconteceu, simplesmente. O sistema de tráfego de São Paulo é muitas centenas de vezes mais complexo do que qualquer um imagina. Isto não tem nada a ver com forças ocultas. Tem mais a ver com situação social, geografia, história e urbanismo(ou a falta dele). Às vezes(e só às vezes), isso funciona de modo vantajoso para as pessoas, embora elas nunca fossem acreditar. Isso, claro, quando não chove. Acontece que sempre chove. E choveu àquela tarde. Esta parte sim, uma desagradável cortesia dos demoninhos supracitados.
  São Paulo não foi projetada para carros. Indo mais direto ao ponto, ela não foi projetada para pessoas. Isso criou problemas, e as soluções que foram implementadas se tornaram os problemas seguintes, cinco ou dez anos depois.
A mais recente solução é o rodoanel, uma rodovia que forma um círculo ao redor da cidade. Até o momento os problemas haviam sido praticamente básicos: coisas como a obsolescência de algo antes de sua construção ser finalizada, filas einsteinianas que acabavam se fechando em torno de si mesmas e a ausência de um plano B, pro caso da caríssima obra não surtir o efeito desejado.
  Mas neste dia em específico, uma caminhão de sei-lá-o-que-corrosivo-e-inflamável havia tombado na entrada da anhanguera, esparramando litros e litros de sei-lá-o-que-corrosivo-e-inflamável pela pista. A concessionária devia estar retirando o sei-lá-o-que-corrosivo-e-inflamável de canudinho. Porque só isso poderia explicar a interdição por quase uma hora de TODAS as pistas do sentido São Paulo da larga (e cara, não canso de lembrar) rodovia. E depois disso eu ainda teria de enfrentar a Marginal.

  Carros, teoricamente, são um método fantasticamente rápido de se viajar de um lugar a outro. Carros em São Paulo, por outro lado, são uma fantástica oportunidade de se ficar absolutamente parado. Na chuva, e no pôr-do-sol, enquanto ao seu redor a sinfonia cacofônica de buzinas fica cada vez maior e mais exasperada, o inferno se instala em cada automóvel deste estacionamento publico...
  E 3 horas depois de sair de Embu, o Fulano, que já tinha virado um daqueles irmãos que a gente ganha nas adversidades (tenho horror a acampamentos mas imagino que pessoas que se perdem no mato desenvolvem amizade semelhante) me deixou enfim na bela e pacata provincia sino-niponica da Liberdade (o floreio é só pra dar uma dimensão da felicidade de chegar em casa).
  A companhia até que foi bem agradável, sabe? Ele até perguntou se podia colocar um cd, o que provavelmente me salvou de ouvir alguma coletanea de Sertanejo Universitário no repeat.
  Na verdade, ele estava ouvindo um album com "O Melhor da Bossa Nova", mas não se deve tirar nenhuma conclusão disso porque todos os cds deixados num carro por mais de um semestre se metamorfoseiam em álbuns com "O Melhor da Bossa Nova".
  Em algum momento entre Samba do Avião e Desafinado, eu peguei no sono. O vislumbre seguinte era extra corporal, uma visão aérea, quase um Google Maps mental:


O fim do mundo estava chegando e as pessoas corriam para a salvação em algum lugar o mais longe possivel de Embu-Guaçu, a cidade maldita (essa parte meu subconsciente deve ter roubado de um filme chinês HORRIVEL que assisti dia desses). O rodoanel não existia; pelo menos não em termos espaciais humanos. A fila de carros que não estavam cientes disso, ou que tentavam encontrar rotas alternativas para fora de São Paulo, estendia-se até o centro da cidade, de todas as direções. Não haviam rotas alternativas, não haviam viadutos, tuneis ou corredores de onibus. Pela primeira vez em sua história, São Paulo estava completamente paralisada. A cidade inteira estava imersa em um imenso engarrafamento.

  Não fosse um sonho, obviamente pensaria que o melhor a fazer era descer e procurar a pé um bar aconchegante e beber até ficar completa e profundamente fora de sintonia com o mundo enquanto esperava o fim dele chegar.
  O problema é que quase mil novos carros por dia e o noticiário da manhã me fazem crer que talvez, TALVEZ, a cidade esteja mesmo despreparada para o caos iminente. Se um motorista cheio de cafeína, bolinhas brancas e regulamentos de transporte é capaz de parar um dos principais gargalos de entrada da cidade imagine o que acontece DENTRO dela? O que acontece quando os corredores colapsam? O que acontece quando 2 milhões de felizes beneficiados do IPI reduzido decidirem colocar suas máquinas na rua? O que acontece quando não houver mais espaço nem acima nem abaixo do solo?

  Não imagino que o inferno tenha a competencia e criatividade de inventar algo pior que isso. Na verdade, tenho certeza que naquela noite, a comitiva  infernal em visita enviou pelo malote corporativo um relatório para o "andar de baixo" com um memorando: Caras, aprendam!
  Talvez o armagedom chegue com quatro cavaleiros, pestes, fome, guerra e milhões de kilômetros de motoristas impacientes tentando voltar pra casa.



ps. É meu segundo vislumbre do apocalipse(o primeiro foi num restaurante japonês) e tenho medo de que no terceiro acabe dando atenção àquele cara do greenpeace parado na esquina da Brigadeiro com a Paulista(embora eu sempre desconfie de sujeitos brancos de cabelo rastafari).

Começou!

Um país inteiro pára por causa do futebol, mas não pára para resolver o problema da fome... Este sim é o verdadeiro ópio do povo! Faz esquecê-lo de que são explorados, subdesenvolvidos...
 Estou torcendo para o Brasil perder! Assim, o povo voltará á realidade e verá que a vida não é feita de gols, mas de injustiças... Nossa realidade não é tão bela como uma jogada como esta de Pelé invadindo a grande área inglesa e...Penalti! Penalti! Juiz filho da puta! Penalti seu safado!

Henfil, no Pasquim em 1970

Just Look Around

Não me pergunte o que eu estava fazendo lá, mas a rua Vergueiro, esta noite, era um zoológico humano. Um microcosmo da cidade.

  Se você quer imaginar São Paulo, imagine uma patricinha adolescente, seu cachorro e seus amigos. E um verão que, pra ela, jamais terminou(mesmo quando o termometro marca 12 graus).
  E se você quer saber como será o inverno imagine uma bota... não, imagine um tênis, um all star, cadarços arrastando no chão, chutando uma pedrinha. Imagine uma prostituta de cabelo bicolor,  cheirando a vodka e cigarro vagabundo, com um jeito cadenciado de andar, num constante estado de letargia. Imagine um assobio sem melodia, transformando uma canção popular infeliz numa massa de insensibilidade. Imagine um gordinho de mochila, mais bebado que eu, tentando encontrar o caminho pra estação Vergueiro, minutos antes de descobrir que o metrô já fechou. Imagine uma figura, meio anjo, meio demônio, inteiramente humana, vestindo uma minisaia, uma jaqueta de camurça e um sorriso cansado...

Imagine uma cidade...

não...

 imagine uma vida...uma vida que segue rigorosamente estática, como se não existisse "o tempo".

Crônica de uma tarde infeliz (parte 1)



  Não foi uma tarde escura e tempestuosa.
  Deveria ter sido, mas sabe como é o tempo. Para cada cientista louco que teve uma conveniente tempestade justo na noite em que sua Grande Obra está terminada, dezenas ficaram vagando sem objetivo sob as estrelas tranqüilas enquanto São Pedro conta as horas extras.
  Mas não deixe o tímido sol (com chuva no final do período, temperaturas caindo a cerca de cinco graus. Patricia Madeira, da Climatempo para o CBN São Paulo) lhe dar uma falsa sensação de segurança. Só porque é uma tarde relativamente tranqüila não quer dizer que forças negras não estejam à espreita. Elas estão à espreita o tempo todo. Elas estão em toda parte.  Sempre estão. Esse é o xis da questão. E se o telefone tocar e lhe perguntarem como está de atividade para hoje, elas saírão de seu esconderijo e pularão sobre você com a ferocidade de uma leoa faminta.

- Como tá de comidinha pra hoje*.
- Ah tá tranquilo. Por?
- Fulano tá indo pra Embu. Interessante ter alguém da área técnica com ele**. Pra dizer se é possivel fazer o que os caras estão pedindo.
- Po tudo é possivel chefe. - arrisquei, disfarçando pânico com excesso de café - Problema é só o tempo.
- Ele passa aí quando estiver saindo. Até mais.

E desligou antes que eu pudesse protestar.
  Meu mais novo companheiro de viagem foi solidário, disse que sabia o quanto aquilo era inútil e tentaria tornar a reunião o mais curta possivel; com sorte eu estaria de volta a São Paulo antes da hora do rush. Não foi o que aconteceu afinal, mas o respeito por ter tentado. Era o mamute do dia o que se podia fazer? O conta do bar não perdoa. No meu mundo, qualidade de vida é uma coisa que acontece apenas aos finais de semana e feriados.
  E lá estava eu na maldita reunião. É claro que minha presença naquela sala era tão necessária quanto a de Andres Sanchez no mundo. Mas eu me esforçava pra sorrir das piadas cretinas e intervenções ridículas (sabem o que é pior que um sujeito q se denomina "analista de mídias sociais" com mais de 50 anos de idade? Um sujeito que se denomina "analista de mídias sociais" com mais de 50 anos de idade que acredita ter 25) enquanto procurava desesperadamente uma conexão wi-fi desbloqueada.
  Já passavam das 5 da tarde e eu não podia imaginar àquela altura que vivia a parte menos desagradável do dia. Quando aquilo acabasse, ainda teria de enfrentar a volta pra casa. E é aí que os problemas DE FATO iriam começar.

continua...

* Meu gerente se refere a trabalho como "comidinha". Esta é só uma das coisas desagradáveis que posso falar sobre ele.

** Tenho preguiça de gerente que fala "área técnica". Menos por isso denotar uma completa falta de entendimento da própria equipe e mais pela generalidade da expressão. Tanto o diretor de engenharia da Itaipu Binacional, como o assistente de iluminação do Brasileirinhas nº5 fazem parte da área técnica. Por falta de emprego melhor do termo, sempre entendi "área técnica" como aquele quadrado à beira do campo de onde o treinador grita "pega pega pega" e "vai vai vai".

Guia do Mochileiro das Galáxias



"Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental
desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.
Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de
quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de
vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que
relógios digitais são uma grande idéia.
Este planeta tem ou melhor, tinha o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.
E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.
Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.
E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.
Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.


Esta não é a história dessa garota.


É a história daquela catástrofe terrível e idiota, e de algumas de suas conseqüências.
É também a história de um livro, chamado O Guia do Mochileiro das Galáxias"


Esta é a introdução da melhor série que já li na vida, do genial Douglas Adams, morto em maio 2001.

 E pra você que viu #diadatoalha no TTBr e não entendeu nada: Towel Day

Eu, você e a vodka

 - Eu devia estar meio Neruda ontem né?
 - Sinceramente? Tava mais pra Wando.

  Tente imaginar um mundo com um enorme buraco no formato de "noite passada". Pois bem. É minha memória. Passei as ultimas horas tentando lembrar qualquer coisa mas nada me veio. Então, por mais que seu relato seja um pouco assustador, fico com ele e não ouso tentar justificar qualquer coisa.
  Lembro de você e uns amigos aqui em casa e lembro de uma quantidade colossal de um certo destilado cossaco. Lembro de ir pra rua e acredito que foi neste momento que acabou a tinta da impressora no departamento da memória de curto prazo.
  Lembro de acordar, hoje, e você olhava pra mim. E pensei na hora que, não importa o que eu tenha de sacrificar, não importa o que eu tenha de fazer, não quero ter de encarar aquele olhar decepcionado novamente.
  Agora a pouco o vizinho passou pela minha porta proferindo algumas especulações grosseiras sobre o modo de vida de minha progenitora. Foi meio patético mas desconfio ter feito algo pior ontem. É sabado. São 11 da noite e desliguei o celular porque não quero sair hoje.  Talvez eu só precise de uma boa noite de sono. Gosto do talvez no inicio das frases porque ele me tira a responsabilidade de mante-las depois. Provavelmente eu te decepcionaria muito menos se minhas frases ontem contivessem mais talvezes.

Falando em precisar, eu poderia passar o noite inteira neste exercicio de imaginar o que talvez eu precise.

  Talvez eu precise de alguém que preencha este branco de tantas horas e tenha a bondade de me poupar das partes mais constrangedoras. Talvez eu precise de alguém que entenda o que aconteceu e que me conheça bem, ou pelo menos bem o suficiente pra não perder tempo emitindo julgamentos (gosto mais quando emitem piadas). Talvez eu precise de alguém que dance comigo quando eu estiver fazendo cosplay de zumbi do Resident Evil na pista. Talvez eu precise de alguém que me dê uma direção quando nada mais fizer sentido e me carregue pra casa enquanto eu jogo squash com os muros da rua (eu era a bola). Talvez eu precise de alguém que me apoie quando eu estiver obviamente errado e me defenda dos mendigos que eu chamei pra briga. E, quando coisas como bom senso, noção, auto preservação e prudencia se tornarem meras epístoles de ser, eu preciso de alguém que não acredite em uma unica palavra do que eu disser.
  Talvez eu conheça alguém assim, mas talvez eu prefira deixar esse assunto para algum lugar indefinido, nessa nuvem invisivel chamada futuro, de preferencia com encefalo e fígado em melhores condições de trabalho. Por hoje eu só queria te desejar boa balada e, por experiencia própria, vá devagar com vodka.

Bjos